Este é o meu refúgio, o meu abrigo. Aqui espelho o meu eu, sob a forma dos meus pensamentos feitos palavras...
Sexta-feira, 15 de Dezembro de 2006
Uma luz...

estrela_de_natal.gif


A Estrela


 


Eu caminhei na noite


Entre silêncio e frio


Só uma estrela secreta me guiava


Grandes perigos na noite me apareceram


Da minha estrela julguei que eu a julgara


Verdadeira sendo ela só reflexo


De uma cidade a néon enfeitada


A minha solidão me pareceu coroa
Sinal de perfeição em minha fronte


Mas vi quando no vento me humilhava


Que a coroa que eu levava era de um ferro


Tão pesado que toda me dobrava


Do frio das montanhas eu pensei:


«Minha pureza me cerca e me rodeia»


Porém meu pensamento apodreceu


E a pureza das coisas cintilava


E eu vi que a limpidez não era eu


E a fraqueza da carne e a miragem do espírito


Em monstruosa voz se transformaram


Disse às pedras dos montes que falassem


Mas elas como pedras se calaram


Sozinha me vi delirante e perdida


E uma estrela serena me espantava


E eu caminhei na noite minha sombra


De desmedidos gestos me cercava


Silêncio e medo


Nos confins desolados caminhavam


Então eu vi chegar ao meu encontro


Aqueles que uma estrela iluminava


E assim eles disseram: «Vem connosco


Se também vens seguindo aquela estrela»


Então soube que a estrela que eu seguia


Era real e não imaginada


 


Grandes noites redondas nos cercaram


Grandes brumas miragens nos mostraram


Grandes silêncios de ecos vagabundos


Em direcções distantes nos chamaram


E a sombra dos três homens sobre a terra


Ao lado dos meus passos caminhava


E eu espantada vi que aquela estrela


Para a cidade dos homens nos guiava


 


E a estrela do céu parou em cima


De uma rua sem cor e sem beleza


Onde a luz tinha a cor que tem a cinza


Longe do verde azul da natureza


 


Ali não vi as coisas que eu amava


Nem o brilho do sol nem o da água


Ao lado do hospital e da prisão


Entre o agiota e o templo profanado


Onde a rua é mais triste e mais sozinha


E onde tudo parece abandonado


Um lugar pela estrela foi marcado


 


Nesse lugar pensei: «Quanto deserto


Atravessei para encontrar aquilo


Que morava entre os homens e tão perto»


 


Sophia de Mello Breyner Andresen


In Cem Poemas de Sophia,


Ed. Revista Visão – JL, 2004


 



publicado por scorpiowoman às 23:20
link do post | comentar | favorito
|

1 comentário:
De aflores a 17 de Dezembro de 2006 às 20:11
Que encontres a tua estrela e que a mesma te guie...sempre!


Comentar post

mais sobre mim
pesquisar
 
Fevereiro 2013
Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab

1
2

3
4
5
6
7
8
9

10
11
12
13
15
16

17
18
19
20
21
22
23

24
25
26
27
28


posts recentes

Há 43 anos

Oito anos depois

Incertezas

Até sempre, Minha Maria

Inesquecível

Hoje

Não mata, mas mói...

Aos meus Pais

Um novo Natal, o mesmo se...

Um ano depois...

arquivos

Fevereiro 2013

Janeiro 2013

Julho 2012

Maio 2012

Março 2012

Fevereiro 2012

Dezembro 2011

Junho 2011

Abril 2011

Fevereiro 2011

Janeiro 2011

Dezembro 2010

Novembro 2010

Outubro 2010

Agosto 2010

Junho 2010

Maio 2010

Abril 2010

Março 2010

Novembro 2009

Setembro 2009

Agosto 2009

Julho 2009

Junho 2009

Maio 2009

Abril 2009

Março 2009

Fevereiro 2009

Janeiro 2009

Dezembro 2008

Novembro 2008

Outubro 2008

Setembro 2008

Agosto 2008

Julho 2008

Abril 2008

Março 2008

Fevereiro 2008

Janeiro 2008

Dezembro 2007

Novembro 2007

Outubro 2007

Setembro 2007

Agosto 2007

Julho 2007

Junho 2007

Maio 2007

Abril 2007

Março 2007

Fevereiro 2007

Janeiro 2007

Dezembro 2006

Novembro 2006

Outubro 2006

Setembro 2006

Agosto 2006

Junho 2006

Maio 2006

Abril 2006

Março 2006

Fevereiro 2006

Janeiro 2006

Dezembro 2005

Novembro 2005

Outubro 2005

Setembro 2005

Agosto 2005

Julho 2005

Junho 2005

Maio 2005

Abril 2005

Março 2005

Fevereiro 2005

tags

todas as tags

links
Fazer olhinhos
blogs SAPO
subscrever feeds