Este é o meu refúgio, o meu abrigo. Aqui espelho o meu eu, sob a forma dos meus pensamentos feitos palavras...
Quarta-feira, 3 de Junho de 2009
Rendição...

gaivotas-1.jpg


Há já muitos anos, o fado era som comum nestas paredes que hoje habito, visto ser gosto cultivado pelas gerações que me antecederam e cá me deixaram após a sua partida.


Hoje, redescubro os seus poemas sob uma outra sonoridade, que primeiro se estranha e depois se entranha, mas destacando-se o poema que, de outra forma, morreria sem apreciar, pois não ouço Amália há mais de dez anos, uma década quase volvida que marca não só a sua morte como principalmente a da minha mãe (no mesmo mês)...


Hoje aprecio o talento daqueles cujas carreiras em nada diria apreciarem esse som, esse marco, mas cuja revelação me deixou sem chão e me fez render, num voo tão longo como o de uma gaivota que se deixa levar pela brisa da beira-mar...


Hoje rendo-me à voz de Sónia nas palavras de O'Neill um dia cantadas por Amália.


Rosália, 03/06/2009


Gaivota


(Alexandre O'Neill / Alain Oulman)


 


Se uma gaivota viesse


Trazer-me o céu de Lisboa


No desenho que fizesse,


Nesse céu onde o olhar


É uma asa que não voa,


Esmorece e cai no mar.


 


Que perfeito coração


No meu peito bateria,


Meu amor na tua mão,


Nessa mão onde cabia


Perfeito o meu coração.


 


Se um português marinheiro,


Dos sete mares andarilho,


Fosse quem sabe o primeiro


A contar-me o que inventasse,


Se um olhar de novo brilho


No meu olhar se enlaçasse.


 


Que perfeito coração


No meu peito bateria,


Meu amor na tua mão,


Nessa mão onde cabia


Perfeito o meu coração.


 


Se ao dizer adeus à vida


As aves todas do céu,


Me dessem na despedida


O teu olhar derradeiro,


Esse olhar que era só teu,


Amor que foste o primeiro.


 


Que perfeito coração


Morreria no meu peito,


Meu amor na tua mão,


Nessa mão onde perfeito


Bateu o meu coração.


 



publicado por scorpiowoman às 00:30
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