Há já muitos anos, o fado era som comum nestas paredes que hoje habito, visto ser gosto cultivado pelas gerações que me antecederam e cá me deixaram após a sua partida.
Hoje, redescubro os seus poemas sob uma outra sonoridade, que primeiro se estranha e depois se entranha, mas destacando-se o poema que, de outra forma, morreria sem apreciar, pois não ouço Amália há mais de dez anos, uma década quase volvida que marca não só a sua morte como principalmente a da minha mãe (no mesmo mês)...
Hoje aprecio o talento daqueles cujas carreiras em nada diria apreciarem esse som, esse marco, mas cuja revelação me deixou sem chão e me fez render, num voo tão longo como o de uma gaivota que se deixa levar pela brisa da beira-mar...
Hoje rendo-me à voz de Sónia nas palavras de O'Neill um dia cantadas por Amália.
Rosália, 03/06/2009
Gaivota PREFIX = O />
(Alexandre O'Neill / Alain Oulman)
Trazer-me o céu de Lisboa
No desenho que fizesse,
Nesse céu onde o olhar
É uma asa que não voa,
Esmorece e cai no mar.
Que perfeito coração
No meu peito bateria,
Meu amor na tua mão,
Nessa mão onde cabia
Perfeito o meu coração.
Se um português marinheiro,
Dos sete mares andarilho,
Fosse quem sabe o primeiro
A contar-me o que inventasse,
Se um olhar de novo brilho
No meu olhar se enlaçasse.
Que perfeito coração
No meu peito bateria,
Meu amor na tua mão,
Nessa mão onde cabia
Perfeito o meu coração.
Se ao dizer adeus à vida
As aves todas do céu,
Me dessem na despedida
O teu olhar derradeiro,
Esse olhar que era só teu,
Amor que foste o primeiro.
Que perfeito coração
Morreria no meu peito,
Meu amor na tua mão,
Nessa mão onde perfeito
Bateu o meu coração.
Os meus cantinhos