Fernando D. C. Sousa (09/06/1944 - 09/08/1986)
Hoje é o teu dia, tal como o foi há já 30 anos atrás, quando soubeste que eu estava "encomendada" e a caminho. Este será sempre o teu dia e, quem sabe daqui a algum tempo, também os teus netos lerão estas linhas e conhecerão então o avô de quem a mãe tanto fala. Curiosa data esta que me fez despertar do torpor que a tua ausência no meu mundo tem sido ao longo de já tantos anos. Curiosa data esta que só hoje me apeteceu celebrar assim, talvez por sentir que a tua memória em mim ganhou nova força, nova vida mesmo que tu não regresses mais.
Olho estas fotografias e paro. Reflicto sobre o que tantas pessoas que nunca te conheceram me dizem: "És a cara chapada do teu pai!". Rio-me quando lembro também aquelas que me viam ao lado da Mãezinha na rua e diziam exactamente o mesmo, mas dirigindo-se a ela com um: "Tão parecidas! Parecem irmãs!" Cedo comecei a perceber que sou o resultado daquilo que se convencionou chamar uma "mistura bem feita", pois herdei as características de ambos de forma bem vincada. Até mesmo em questões de personalidade e aí, Paizinho, acho que estás a ganhar a corrida ;)...
Recordo-te muito. Por vezes, angustia-me pensar que já não me lembro da tua voz, dos teus gestos ou da forma como caminhavas. Tu vivias no mundo dos grandes e eu no das crianças. Ainda assim, sei que me amavas muito e me desejavas tudo de bom, o melhor que eu pudesse ter. A Mãezinha muitas vezes dizia que se eu, um dia, te pedisse a Lua, não hesitarias em ir buscá-la só para me veres sorrir.
Sei que partiste por um desígnio maior e, ainda que por vontade própria, tal caminho terá tido a sua razão e o seu propósito. Sofreste tu com a partida e nós com a tua ausência, mas sei que tal sentimento seria ainda pior se te tivéssemos visto, a ti que eras uma pessoa tão viva e activa, a definhar, lentamente minado por uma doença altamente incapacitante e ainda hoje (infelizmente) incurável.
Hoje quero dizer-te aquilo que não tornaste mais a ouvir da minha boca depois daquele último adeus tão cheio de mágoa e revolta por um gesto teu que, enquanto criança, não tive a mínima capacidade de entender, pois não fazia parte do meu mundo.
Gosto muito, muito de ti Paizinho e sinto ainda mais a tua falta. Para mim foste e serás sempre o melhor Pai do Mundo.
Como eu costumava escrever nos bilhetes que escondia no teu porta-moedas (para encontrares a caminho do trabalho, na manhã seguinte):
"Tem um dia bom. Beijinhos grandes da filha reguila que te adora, Rosália Maria".
Os meus cantinhos